
Antes, uma palavrinha sobre expectativa de vida…
O valor mais usado para falar de expectativa de vida em pacientes com câncer é chamado SOBREVIDA GLOBAL, isto é, quanto os pacientes viveram, em média, após o diagnóstico, disponível com base em dados estatísticos para diferentes tipos de tumor em diferentes estágios da doença.
É bom lembrar que essas estatísticas de sobrevida representam uma COMPARAÇÃO, isto é, comparam tempo de vida de uma pessoa com câncer com a sobrevida de outras pessoas – saudáveis, mas com a mesma idade, gênero e etnia.
O problema na interpretação desse número é que ele é uma MÉDIA, baseada em um grupo grande de pessoas que teve essa doença nos últimos dez anos.
Por isso é muito difícil usar essa média para predizer exatamente o que vai acontecer com um paciente individual. Afinal, nunca dois pacientes com a mesma doença no mesmo estágio são exatamente iguais. Alguns podem ter uma sobrevida acima da média, outros, não.
Algumas variáveis muito importantes podem ajudar a entender essas nuances.
- Primeiro – características do PACIENTE, tais como
- idade
- estado geral de saúde
- presença de outras doenças
Os oncologistas costumam se referir ao estado geral de saúde do paciente como “performance-status” e usam escalas para facilitar a comunicação.
Clique aqui se quiser saber mais sobre essas escalas.
- Segundo – características do TUMOR:
- dados descritos no laudo do patologista (subtipo de tumor, grau de indiferenciação, algumas alterações moleculares, etc).
- estágio clínico (ou seja, se a doença está localizada, localmente avançada ou metastática)
- volume de doença (por exemplo, se vários órgãos ou se grande parte de um órgão vital tem comprometimento pelo tumor)
- Terceiro – a resposta ao tratamento
Geralmente os tratamentos com maior eficácia no controle da doença são os primeiros que são oferecidos para o paciente.
A expectativa é que, uma vez iniciado o tratamento, a doença comece a diminuir ou pelo menos pare de crescer.
Por outro lado, apesar de não ser o mais comum, pode acontecer de a doença continuar crescendo mesmo com o tratamento adequado, e não tem como prever isso antes de o tratamento começar.
Importante: mesmo considerando todos esses fatores as taxas de sobrevida ainda são estimativas aproximadas.
Moral da história: não é nada fácil.
Pacientes (raramente, pela minha experiência) e seus familiares (esses com mais frequência) desejam ter pelo menos uma ideia do que esperar da doença em termos de expectativa de vida.
Infelizmente, ninguém, nem mesmo médicos com ANOS de experiência conseguem predizer quanto tempo de vida uma pessoa tem, seja ela uma pessoa aparentemente saudável, ou doente, ou com câncer, ou sem câncer.
E vou destacar que essa dificuldade é universal.
Estudos mostram que mesmo médicos com MUITA experiência no assunto conseguem antecipar corretamente em apenas 20% dos casos (!). As estimativas são um pouco melhores (50% de acerto) nos grupos extremos – pacientes cuja expectativa era de menos de um mês, ou pacientes cuja expectativa era de mais de um ano.
Outro ponto importante é que mudanças aguda do quadro clínico – uma pneumonia, ou um sangramento, por exemplo – podem aumentar mais ainda as incertezas.
A Dra. Debbie Selby que conduziu esse estudo coloca: “não podemos prever o futuro”. É importante mostrar que as estimativas de sobrevida são apenas isso: uma estimativa, um “chute calculado”, sujeito a variações para mais ou para menos. “Mas podemos usar essa estimativa para ajudar as pessoas a refletir sobre o que é importante para elas fazer no tempo que elas podem ter.”
Referências (para usuários avançados):
Clinician Accuracy When Estimating Survival Duration
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0885392411001369

[…] Para entender melhor sobre as dificuldades de definir a expectativa de vida em pacientes com câncer, não deixe de ler o artigo “Quanto tempo eu vou viver?” Entenda mais sobre expectativa de vida no câncer […]
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Parabéns Doutor,pela iniciativa!
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Excelente matéria doutor Guilherme! Obrigada!
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